…chama-se de Lugar de Castro. Pertence à freguesia de Perosinho e situa-se a Sul no Concelho de Vila Nova de Gaia. Localiza-se junto à encosta oeste do Monte Murado sobejamente desconhecido pela forte presença de achados arqueológicos e considerado como o único imóvel arqueológico de interesse público (Decreto n.º 26-A/92) localizado no Município de Vila Nova de Gaia.
O lugar onde nasci, Lugar de Castro, é atravessado por uma via de origem romana hoje completamente imperceptível. Localiza-se na vertente ocidental do Monte Murado, "Monte Pedregoso", onde existiu um Crasto, no sopé desse mesmo monte, que veio a dar o nome ao Lugar de Castro. Aí foram encontradas "uns objectos de pedra polida de insólito feitio" (MeaVilla de Gaya, pag. 10), o que faz recuar até ao período neolítico o conhecimento da presença humana nestas paragens. Em 1982 foram ainda encontradas duas Tesserae Hospitales, que podem ser vistas no Solar Condes de Resende / Casa Municipal da Cultura, datadas dos anos 7 e 9 d.c.. As Tesserae Hospitales eram tábuas em bronze com inscrições referentes a pactos de hospitalidade entre os romanos e os povos primitivos onde estes se instalavam. Este achado foi considerado o achado arqueológico mais importante da década na Península Ibérica.
A igreja matriz da freguesia, Perosinho, foi fundada em 1132, embora seja de admitir que a capela de Castro, mais antiga, possa ter servido de igreja paroquial, antes daquela data. Estas são as origens do lugar onde nasci.
Os parágrafos anteriores servem apenas como resenha histórica, valem pelo que valem. Hoje, o que a mim importa, é que este lugar, tão acarinhado por todos os que lá habitam, esteja deitado ao abandono.
Recordo com saudade as tardes passadas a jogar à bola no adro da capela, na altura ainda em terra batida, com “terrões” a limitar as balizas improvisadas, as caminhadas pelas encostas do Monte em busca não sabíamos bem do quê. Éramos muitos, mais de duas dezenas, e alegrávamos a ruas do lugar transpirando furor e vivacidade. Seguíamos em procissão para a escola, fazíamos corridas da escola para casa, o último a chegar à capela ia para a baliza. Era um lugar vivo e alegre.
Lembro com saudade os dias de festa, em honra de Nossa Senhora do Pilar, que alegravam toda a população. Quatro dias de arraial sendo que o último trazia as tradicionais “sopas de vinho” que bailavam ao som dos acordes do Rancho Folclórico de Perosinho que amavelmente actuava em troca de um singelo peditório aos bailantes. Chamávamos nós espetar a flor, aquela de papel amarelo com um alfinete, que em troca de uma moeda se pregava na lapela dos casacos.
Lembro os Domingos frios e chuvosos em que o despertador tocava mais cedo do que o usual a avisar que era dia de “receber os cartões”, aqueles que eram distribuídos pelos habitantes do lugar e arredores no intuito de recolher receitas que fariam face às despesas do arraial.
- Volte para a semana, hoje está difícil. Eu volto, não se preocupe, eu não me esqueço. E nós voltavamos todos os meses até que chegasse o fim-de-semana festivo, normalmente na última semana de Julho.
Lembro, com alguma vaidade refira-se, a minha intervenção no processo de remodelação da capela. Estava a cair aos pedaços, dizia o povo, precisa de obras, talvez caiar as paredes e limpar as ervas à volta. Não, era pouco, uma capela com valor histórico tão considerável precisava de mais, merecia muito mais. Foi trabalhoso, penoso, obrigou a muitas caminhadas em busca da tão ambicionada moeda, muitas tardes de costas viradas ao sol a capinar, muitos leilões que traziam gente ao adro da capela, o objectivo era só um, fazer da capela de Castro não só a mais antiga como também a mais bonita capela da freguesia. Ficou linda a capela, o Lugar de Castro merecia.
O Lugar de Castro era vivo e alegre. Hoje tudo está diferente, os jovens saíram quase todos, os idosos morrem à média de três a quatro por ano. Não há futebol no adro, não há correria nas ruas, não há arraial, nem sopas de vinho, nem Rancho, nem subida ao mastro, nem corrida de sacos, nada. Nem sequer a capela abre as suas portas, a não ser três a quatro vezes ao ano para receber os finados do lugar. Não há vida no Lugar de Castro.
Fico triste pois fico, mas também eu abandonei este Lugar, de que posso eu queixar-me…




